Energia é a base da nossa existência. Assim sendo, o fascínio/dependência generalizada que este conceito abstracto de força cria no ser humano, traduz-se num dos maiores desafios que a nossa sociedade enfrenta, mas infelizmente com o qual não tem sabido lidar. Tudo porque o instinto de sobrevivência humano obriga sempre a visão de sustentabilidade a longo prazo, e num cenário de recursos escassos, “quem tem olho é rei”. Quem não tem, está implicitamente obrigado a definir uma estratégia para o ter.
Dada a finitude dos recursos, em teoria nenhum país do mundo se pode proclamar auto-suficiente. Mas muito pragmaticamente, os que têm petróleo, gás e carvão, têm o curto/médio prazo salvaguardado.
A expectativa do aumento contínuo de preços começa a ser uma realidade. É esperado que entre 2003 e 2009 as matérias-primas subam (i) 165% no caso do petróleo, (ii) 59% no caso do gás e (iii) 130% no caso do carvão.
Como causas para este inflacionamento, em primeiro lugar, tem-se que é estimado que até 2010 se atinja o peak oil (http://www.peakoil.net/), i.e. que se consumiu metade do crude que existe no nosso planeta. Inclusive, algumas companhias petrolíferas, como a Shell e a BP, já fizeram um shift no discurso onde pela primeira vez admitem que já não têm os mesmo níveis de reservas (20% no caso da Shell) e que a questão do peak oil é de facto algo preocupante, principalmente ao ritmo que se está a consumir (4 barris consumidos por cada barril extraído). Estima-se também que ao ritmo de consumo actual, o petróleo esgotará em 40 anos, o gás em 63 anos mas projecções menos optimistas apontam para 35 anos, e o carvão em 147 anos. Estes números, para além de incertos, não levam em conta o natural aumento de preço com o aproximar da escassez. O preço vai ser tal que um barril de petróleo ou um m3 de gás vão deixar de ser commodities e tornar-se-ão bens preciosos.
Nesse sentido, a OPEP vai continuar a alimentar a especulação de modo a maximizar o valor por cada barril de petróleo extraído (balanceando sempre reservas vs capacidade de extracção), o movimento de consolidação política de países como o Irão, Venezuela, Argélia, Líbia, etc. também não acalma os mercados financeiros, e medidas como a Rússia cortar o abastecimento de gás à Ucrânia, tal como aconteceu em 2006 e forte dependência da Europa deste fornecedor, são tudo factores que inflacionam os preço das matérias primas fósseis, e obrigam os diversos países a procurar alternativas.
Países de ambos os lados da cadeia de valor (produtores e consumidores) têm adoptado diferentes estratégias que vale a pena ilustrar.
Os EUA invadiram o Iraque por duas razões: (i) continuar a dinamizar e desenvolver o sector bélico, que curiosamente é dos maiores apoiantes de Bush e (ii) na expectativa de vir a controlar parte do potencial petrolífero do crescente fértil. Os actos ditatoriais de Saddam, por atrozes que tenham sido, sempre foram pretextos e justificações para estimularem o conflito.
A China, que muitos apelidam de “futuro grande motor da economia mundial” ou de “futuro grande consumidor de recursos” (EUA consomem 23 barris/ano per capita enquanto a China ainda só consome 1,3 barris/ano per capita), cedo percebeu que era necessário assegurar a sua independência energética. Como tal, tem tido uma estratégia extremamente interessante em África, principalmente em Angola e na Nigéria. Por troca de vistos cidadania angolanos e nigerianos, o governo chinês tem investido em infra-estruturas (estradas, pipelines, barragens, minas, etc.) das quais é em parte concessionária. Basicamente está-se a associar a dois dos países africanos com mais recursos e inclusive está a povoar estes mesmos países com cidadãos chineses. Esta estratégia de longo prazo, que agora dá os primeiros passos também em Moçambique e em outros países da África austral, poderá vir a resolver parte da insuficiência energética que a China muito provavelmente será vitima.
Os Emirados Árabes Unidos (EAU), um dos grandes produtores do Médio Oriente, têm uma estratégia e um posicionamento impar relativamente a outros países produtores. Numa primeira fase, desenvolveram os diversos emirados de forma atrair turismo de luxo e de serem a referência a nível mundial. Posteriormente, criaram um “ambiente” suficiente atractivo para que a comunidade ocidental se deslocasse para o deserto, onde rapidamente foram criadas equipas multi-sector de elevada qualidade provenientes de consultoras de topo, bancos de investimento e da própria indústria (telecomunicações, banca, turismo, retalho, farmácia, etc.). Actualmente, têm adquirido posições nas maiores empresas a nível mundial através dos enormes cash-flows que gerados pelo petróleo, assessorados por pessoas como o ex-CEO da BMW e Allianz. Em suma, formaram equipas de talento, posicionaram o país como a referência de turismo de luxo a nível mundial, multiplicaram o valor e diversificaram o risco aplicando os recursos gerados nos mercados mundiais.
No entanto, por mais hedging de risco que se faça no curto/médio prazo relativamente aos combustíveis fósseis, estes não serão suficientes a longo prazo. E aqui é onde se entra no campo das energias renováveis…
O aumento da procura mundial de energia/electricidade, o aumento do custo dos combustíveis fósseis, a procura da independência energética, as alterações climáticas e o crescente desenvolvimento tecnológico de turbinas eólicas, painéis solares, etc., impulsionam e aumentam a tendência para se chegar a uma solução renovável.
A energia que potencialmente pode vir a ser gerada através de recursos naturais tem um enorme potencial quando comparado com o consumo energético actual (130 TWh/ano). A título de exemplo, o potencial hídrico é de 14 TWh/ano, biomassa é de 80, solar é de 440, vento é de 180 e geotérmico é de 1.400 TWh/ano. Estes valores correspondem a potencial técnico e provavelmente não conseguem ser totalmente materializados, mas são suficientes para demonstrar que é possível substituir o actual consumo de combustíveis fósseis por renováveis.
Actualmente, as energias renováveis representam 20% do mix de geração europeu e 18% do mix de geração mundial (maioritariamente energia hídrica). Embora tenham tido uma evolução tecnológica tremenda nos últimos anos, per se ainda não são financeiramente viáveis, necessitando de apoios governamentais.
Estimativas apontam para uma substituição gradual de geração convencional para renovável. Esta substituição não irá ser tão rápida como poderia ser esperado, uma vez que análises apontam para 25%-30% de contribuição para o mix de geração mundial em 2030.
Estes valores têm por base um crescimento semelhante das tarifas que os consumidores têm pago nos últimos anos (1%-3% em valores reais real). E este é o ponto fulcral!
Porque a energia actual é barata face ao verdadeiro custo, uma vez que se têm desprezado os efeitos de CO2 e consequentemente os seus custos implícitos, porque os recursos estão a escassear e o preço das matérias-primas irá aumentar, porque é necessário a apostar em energias renováveis e não é possível que sejam só os governos e as empresas a suportar esse investimento, ter-se-á de escolher uma de duas opções: ou se reduz o consumo ou a se aumentam os preços da energia consumida. Creio que a resposta irá estar num compromisso entre as duas opções. Por um lado, a elites não quererão abdicar dos níveis de conforto actuais e estarão dispostas a pagar por isso mas 95% da população mundial, que não tem hipótese de suportar um aumento drástico do custo com energia (leia-se principalmente electricidade e carro), terá de diminuir o consumo. Nesse sentido o consumo poder-se-á manter aos níveis actuais com o aumento da população.
Neste sentido, podemos estar perante um fenómeno de desglobalizalição. Certamente não será possível comer alface francesa fresca todo o ano e em qualquer parte do mundo. Os custos associados a este tipo de “luxos” não serão competitivos para a maior parte dos segmentos de consumo. A descentralização de produção será uma descontinuidade que possivelmente irá impactar toda a estrutura da indústria. Não sou extremista ao ponto de pensar em auto-suficiência pessoal mas algures no meio entre hoje e esse ponto estaremos. E não mais globalizados da maneira como hoje olhamos para a globalização.
Dada a finitude dos recursos, em teoria nenhum país do mundo se pode proclamar auto-suficiente. Mas muito pragmaticamente, os que têm petróleo, gás e carvão, têm o curto/médio prazo salvaguardado.
A expectativa do aumento contínuo de preços começa a ser uma realidade. É esperado que entre 2003 e 2009 as matérias-primas subam (i) 165% no caso do petróleo, (ii) 59% no caso do gás e (iii) 130% no caso do carvão.
Como causas para este inflacionamento, em primeiro lugar, tem-se que é estimado que até 2010 se atinja o peak oil (http://www.peakoil.net/), i.e. que se consumiu metade do crude que existe no nosso planeta. Inclusive, algumas companhias petrolíferas, como a Shell e a BP, já fizeram um shift no discurso onde pela primeira vez admitem que já não têm os mesmo níveis de reservas (20% no caso da Shell) e que a questão do peak oil é de facto algo preocupante, principalmente ao ritmo que se está a consumir (4 barris consumidos por cada barril extraído). Estima-se também que ao ritmo de consumo actual, o petróleo esgotará em 40 anos, o gás em 63 anos mas projecções menos optimistas apontam para 35 anos, e o carvão em 147 anos. Estes números, para além de incertos, não levam em conta o natural aumento de preço com o aproximar da escassez. O preço vai ser tal que um barril de petróleo ou um m3 de gás vão deixar de ser commodities e tornar-se-ão bens preciosos.
Nesse sentido, a OPEP vai continuar a alimentar a especulação de modo a maximizar o valor por cada barril de petróleo extraído (balanceando sempre reservas vs capacidade de extracção), o movimento de consolidação política de países como o Irão, Venezuela, Argélia, Líbia, etc. também não acalma os mercados financeiros, e medidas como a Rússia cortar o abastecimento de gás à Ucrânia, tal como aconteceu em 2006 e forte dependência da Europa deste fornecedor, são tudo factores que inflacionam os preço das matérias primas fósseis, e obrigam os diversos países a procurar alternativas.
Países de ambos os lados da cadeia de valor (produtores e consumidores) têm adoptado diferentes estratégias que vale a pena ilustrar.
Os EUA invadiram o Iraque por duas razões: (i) continuar a dinamizar e desenvolver o sector bélico, que curiosamente é dos maiores apoiantes de Bush e (ii) na expectativa de vir a controlar parte do potencial petrolífero do crescente fértil. Os actos ditatoriais de Saddam, por atrozes que tenham sido, sempre foram pretextos e justificações para estimularem o conflito.
A China, que muitos apelidam de “futuro grande motor da economia mundial” ou de “futuro grande consumidor de recursos” (EUA consomem 23 barris/ano per capita enquanto a China ainda só consome 1,3 barris/ano per capita), cedo percebeu que era necessário assegurar a sua independência energética. Como tal, tem tido uma estratégia extremamente interessante em África, principalmente em Angola e na Nigéria. Por troca de vistos cidadania angolanos e nigerianos, o governo chinês tem investido em infra-estruturas (estradas, pipelines, barragens, minas, etc.) das quais é em parte concessionária. Basicamente está-se a associar a dois dos países africanos com mais recursos e inclusive está a povoar estes mesmos países com cidadãos chineses. Esta estratégia de longo prazo, que agora dá os primeiros passos também em Moçambique e em outros países da África austral, poderá vir a resolver parte da insuficiência energética que a China muito provavelmente será vitima.
Os Emirados Árabes Unidos (EAU), um dos grandes produtores do Médio Oriente, têm uma estratégia e um posicionamento impar relativamente a outros países produtores. Numa primeira fase, desenvolveram os diversos emirados de forma atrair turismo de luxo e de serem a referência a nível mundial. Posteriormente, criaram um “ambiente” suficiente atractivo para que a comunidade ocidental se deslocasse para o deserto, onde rapidamente foram criadas equipas multi-sector de elevada qualidade provenientes de consultoras de topo, bancos de investimento e da própria indústria (telecomunicações, banca, turismo, retalho, farmácia, etc.). Actualmente, têm adquirido posições nas maiores empresas a nível mundial através dos enormes cash-flows que gerados pelo petróleo, assessorados por pessoas como o ex-CEO da BMW e Allianz. Em suma, formaram equipas de talento, posicionaram o país como a referência de turismo de luxo a nível mundial, multiplicaram o valor e diversificaram o risco aplicando os recursos gerados nos mercados mundiais.
No entanto, por mais hedging de risco que se faça no curto/médio prazo relativamente aos combustíveis fósseis, estes não serão suficientes a longo prazo. E aqui é onde se entra no campo das energias renováveis…
O aumento da procura mundial de energia/electricidade, o aumento do custo dos combustíveis fósseis, a procura da independência energética, as alterações climáticas e o crescente desenvolvimento tecnológico de turbinas eólicas, painéis solares, etc., impulsionam e aumentam a tendência para se chegar a uma solução renovável.
A energia que potencialmente pode vir a ser gerada através de recursos naturais tem um enorme potencial quando comparado com o consumo energético actual (130 TWh/ano). A título de exemplo, o potencial hídrico é de 14 TWh/ano, biomassa é de 80, solar é de 440, vento é de 180 e geotérmico é de 1.400 TWh/ano. Estes valores correspondem a potencial técnico e provavelmente não conseguem ser totalmente materializados, mas são suficientes para demonstrar que é possível substituir o actual consumo de combustíveis fósseis por renováveis.
Actualmente, as energias renováveis representam 20% do mix de geração europeu e 18% do mix de geração mundial (maioritariamente energia hídrica). Embora tenham tido uma evolução tecnológica tremenda nos últimos anos, per se ainda não são financeiramente viáveis, necessitando de apoios governamentais.
Estimativas apontam para uma substituição gradual de geração convencional para renovável. Esta substituição não irá ser tão rápida como poderia ser esperado, uma vez que análises apontam para 25%-30% de contribuição para o mix de geração mundial em 2030.
Estes valores têm por base um crescimento semelhante das tarifas que os consumidores têm pago nos últimos anos (1%-3% em valores reais real). E este é o ponto fulcral!
Porque a energia actual é barata face ao verdadeiro custo, uma vez que se têm desprezado os efeitos de CO2 e consequentemente os seus custos implícitos, porque os recursos estão a escassear e o preço das matérias-primas irá aumentar, porque é necessário a apostar em energias renováveis e não é possível que sejam só os governos e as empresas a suportar esse investimento, ter-se-á de escolher uma de duas opções: ou se reduz o consumo ou a se aumentam os preços da energia consumida. Creio que a resposta irá estar num compromisso entre as duas opções. Por um lado, a elites não quererão abdicar dos níveis de conforto actuais e estarão dispostas a pagar por isso mas 95% da população mundial, que não tem hipótese de suportar um aumento drástico do custo com energia (leia-se principalmente electricidade e carro), terá de diminuir o consumo. Nesse sentido o consumo poder-se-á manter aos níveis actuais com o aumento da população.
Neste sentido, podemos estar perante um fenómeno de desglobalizalição. Certamente não será possível comer alface francesa fresca todo o ano e em qualquer parte do mundo. Os custos associados a este tipo de “luxos” não serão competitivos para a maior parte dos segmentos de consumo. A descentralização de produção será uma descontinuidade que possivelmente irá impactar toda a estrutura da indústria. Não sou extremista ao ponto de pensar em auto-suficiência pessoal mas algures no meio entre hoje e esse ponto estaremos. E não mais globalizados da maneira como hoje olhamos para a globalização.
5 comentários:
Bemvindo à blogosfera caro Pumbas.
Gracias!
Pumbas,
Que belo artigo pá. Muito bom.
Já tinha tido uma conversa bastante interessante sobre isto há uns anos com uma pessoa que também trabalha nesse sector e que curiosamente chegava à mesma conclusão que tu.
Apenas tenho algo a apontar quanto aos motivos da invasão no Iraque. Os que mencionaste são óbvios, mas acho que as convicções por detrás desta guerra são bastante mais espartilhadas e complexas e compreendem uma série de motivos não económicos.
Mas excelente. Continua.
Um abraço.
Bem-vindo!
Óptimo artigo.
Gostei principalmente porque, além de estar bem escrito, fala de temas que não percebo nada e ainda para mais bem documentado com números e valores. O que permite, de certa maneira, mensurar na medida do possível o problema a que estamos expostos.
Continua.
Só uma nota: O link para o Blog Mr. Lazarescu está com “o” e é com “u”.
Parabens!!!!
Li os seguintes comentários e estou totalmente de acordo pois serias o rei da selva PUMBAS
que raio de nome é esse ahahahahahaahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahaahahahahahahah
metes me nojo
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