sexta-feira, 23 de maio de 2008

Power to the people

Como um bom amante de uma das mais antigas artes do mundo, a música, e sobre qualquer forma que ela tenha, fui assistir a um literal espectáculo de Bobby Mcferrin.
Pelo facto de ser um simples apreciador e não crítico deixo-vos uma amostra das capacidades deste Sr. (http://www.youtube.com/watch?v=PgvJg7D6Qck).

Mas indo ao que interessa, Bobby Mcferrin ao seu estilo, conseguiu colocar o Coliseu dos Recreios, em Lisboa, a cantar uma composição de Charles Gounod, de 1859, baseada na Avé Maria de Bach. Para além de um extasiante arrepio, retiro deste raro momento de beleza sintonizada, que a média muitas vezes não está no meio mas sim muito próxima do topo. Explicando melhor, Bobby Mcferrin teve a habilidade de demonstrar a todos os felizes contemplados que a união faz a força, e muito, uma vez que muito pouca gente conseguiria, se é que alguma, num tão curto espaço de tempo acompanhar o mestre de uma forma pura e simples. Por momentos esqueci-me quem é que ali era o artista…

Até há pouco tempo, a genialidade individual ultrapassava em larga escala a criação conjunta, nas artes, nos negócios, na vida social e na política, isto porque talvez a segunda não fosse frequente ou simplesmente não tivesse visibilidade. Quase que se pode falar de uma transição de Hércules para 300 Espartanos ou da substituição de um discurso político contra a pobreza por 5000 voluntários a trabalhar no Banco Alimentar Contra a Fome, e exemplos destes não faltam.
Em 2006, atingiu-se o primeiro bilião de utilizadores de Internet e estima-se que em 2010 se atinja o segundo bilião. A democratização informática tem dado aso à criação de comunidades com características únicas, onde através da contribuição individual de cada um se atinge um fim mais rapidamente e de um modo mais eficiente, e definitivamente com maior qualidade. Este momentum não só está a crescer rapidamente como começa a impactar a economia.

A Web 2.0, apelidada por Tim O'Reilly (www.oreillynet.com/pub/a/oreilly/tim/news/2005/09/30/what-is-web-20.html?page=1) para retratar o ressurgimento da Internet no seguimento do boom do ano 2000, está presente no nosso dia-a-dia sem nos darmos conta dos gigantes que orbitam à sua volta. A arte consiste em juntar “produtores” com interesses comuns na mesma plataforma, posteriormente alavancar no potencial conjugado para se chegar ao resultado pretendido e finalmente fornecer um produto ou serviço ao outro lado da equação, os “consumidores”. A criação de um ciclo virtuoso é crítico para que a plataforma sobreviva e continue a atrair mais “colaboradores”.

O Youtube, o Ebay, a Wikipedia, a Amazon, o Hi5, o Lifebook, o Linkedin, e alguns mais, são exemplos mundialmente conhecidos deste novo modelo de negócio. Mas outros, mais “pequenos” e mais específicos também continuam a atrair utilizadores nas mais variadas áreas:
Þ O Shvoong (www.shvoong.com), em que os “produtores” resumem livros e posteriormente vendem os resumos aos “consumidores”. O autores dos resumos são avaliados e quanto melhor o rating, maior o número de resumos vendidos, criando-se assim um ciclo virtuoso. O inventor da plataforma recolhe um fee por resumo e vende publicidade;
Þ O Zopa (www.zopa.com), em que na mesma plataforma, “produtores” emprestam dinheiro a “consumidores” em contractos individuais. É um conceito que se baseia em desintermediação bancária e é uma alternativa ao crédito ao consumo, onde os devedores conseguem taxas baixas e os credores conseguem taxas mais altas. O risco de crédito é atenuado com base no histórico dos utilizadores. O inventor da plataforma recolhe um fee por transacção e vende publicidade;
Þ O Threadless (www.threadless.com), onde “produtores” desenham logótipos para t-shirts, que posteriormente são votados, e mensalmente os vencedores para além de um prémio que recebem, vêem t-shirts a serem produzidas com os logos vencedores. O inventor da plataforma tem receitas provenientes da venda das t-shirts e vende publicidade.

Vale a pena fazer um parêntesis sobre dois fenómenos sociais interessantes sob os quais assentam estas plataformas: lealdade e orgulho/vaidade. São dois elementos muito importantes neste tipo de modelo de negócio e sem os quais não seria viável o seu funcionamento, onde por um lado se tem verificado que não existe, em média, interesse por parte dos utilizadores do site em fugir às “regras do jogo” e não criar entropia no sistema, e por outro lado, o nível de participação nestes fóruns é de facto muito elevado, um vez que a Internet apresenta-se como uma montra onde qualquer pessoa pode apresentar as suas qualidades/criações, com um elevado volume de audiência, coisa nunca possível com qualquer outro meio de comunicação.

Transversalmente a este mercado efervescente de comunidades, aparece o Google sobre a forma de chapéu-de-chuva com a fórmula mágica para que a maioria destes sites de comunidades sejam rentáveis, a micro-publicidade. O Google conseguiu quebrar o famoso princípio de Pareto (www.en.wikipedia.org/wiki/Pareto_principle), que afirma que 80% dos efeitos estão concentrados em 20% das causas. Transpondo para o mercado publicitário, onde anteriormente 20% dos publicitários endereçavam 80% dos consumidores, agora os mesmos 20% não conseguem nem por sombra cobrir 80% do mercado, uma vez que o Google abriu por completo o acesso a publicidade de baixo custo facilitando todos os restantes pequenos utilizadores.

“Power to the people” retrata uma tendência clara que a nossa sociedade aparenta estar a querer seguir e a nível económico, para além da criação de um novo modelo de negócio em forte expansão, começa a impactar as tradicionais cadeias de valor. Exemplo disso aconteceu recentemente em Xangai, onde um grupo de 200 pessoas combinou via Internet encontrar-se à porta de uma megastore de equipamento electrónico, e, alvancando na momentânea economia de escala, conseguiu adquirir 200 plasmas por metade do PVP estabelecido.

Isto significa que os fornecedores deixam de ter a preponderância de outrora, onde simplesmente injectavam produtos no mercado sendo os consumidores obrigados a adquirir sem grande liberdade de escolha. Agora, com a abertura do mercado e consequente aumento da concorrência, e onde a diferenciação e a capacidade de oferta de produtos customizados deixam de ser opção para os produtores mas sim requisitos mínimos para se estar presente no mercado, fazem com que a balança tenho acabado por pender para o lado dos consumidores. E a Internet foi o grande catalizador desta mudança…

Neste contexto e perante alguns sinais que o mercado já apresenta, esperam-se que algumas das seguintes tendências se concretizem:
Þ O valor acrescentado dos intermediários está em declínio e os de pequena/média escala tenderão a desaparecer. O acesso dos consumidores ao produto final será feito directamente na origem, aparecendo a Internet e as empresas de shipping como entidades chave neste modelo. O primeiro como ponto de contacto e o segundo como ponte entre ambas as partes;
Þ O sector ferroviário reaparecerá motivado pelos custos de transporte aéreo e rodoviário. A minimização do custo da energia eléctrica através de novas tecnologias como eólica e solar pode ser aproveitada por comboios eléctricos, ao passo que os restantes meios de transporte ainda não têm alternativa aos combustíveis fósseis. O aumento dos custos das transacções intercontinentais será um dos catalizadores de uma concentração global em vários blocos, Europa excepto Rússia, Rússia, E.U.A e Canadá, América Central e do Sul e Ásia (Tigres Asiáticos);
Þ Tudo se resume, e particularmente o mercado, a uma constante mas infrutífera busca do equilíbrio. Assim sendo, a balança produtores vs consumidores terá de voltar ao centro. Concentração ao nível dos consumidores, o que até agora é impensável, obrigará a uma concentração dos produtores transversal a todos os sectores de actividade;
Þ No curto prazo, motivados pela escalada do preço das matérias-primas, empresas de grande consumo como a P&G e Gillete e Nestlé procurarão consolidação. Como resposta, seguir-se-ão Walmart e Carrefour, que aparecem como dos últimos grandes intermediários;
Þ Companhias aéreas também se consolidarão de forma a partilhar custos fixos, diminuir concorrência e reduzir rotas de forma a aumentar o volume de passageiros por companhia e por voo, uma vez que por um lado a exposição ao crude é total por não se vislumbrarem no médio prazo tecnologias que substituam o motor a jacto, e por outro, o aumento dos preço das tarifas, reflexo do aumento dos combustíveis, é superior ao aumento do rendimento per capita, fazendo com que o poder de compra diminua e consequentemente o consumo.
Þ …

A mudança de paradigma relativamente aos consumidores é à sociedade em geral, num momento em que a economia como um todo está em profunda remodelação, representa um momento de viragem neste início de século. Por enquanto, ainda só se reflecte ao nível do consumo, mas com o tempo começará a chegar ao interior da sociedade civil e aí será muito interessante ver até que ponto afectará o poder de decisão da classe política. Só resta saber quanto tempo falta…